Eu quero acreditar: como funciona a busca por vida fora da Terra

Eu quero acreditar: como funciona a busca por vida fora da Terra

Alienígenas: eles existem ou não? Esta é uma polêmica que já dura décadas – muita gente acredita que não só existe como nós já fizemos contato com formas de vida de outros planetas e tudo está sendo escondido pelo governo dos EUA, enquanto outras pessoas acham que essa história de ET sem Rodolfo não passa de invenção de Hollywood – mas na comunidade científica não há polêmica: existe um entendimento geral de que o universo é muito grande para que apenas o nosso planetinha minúsculo aqui do Sistema Solar ser o único a ter desenvolvido vida. A questão é: como encontrar provas de que existem – ou existiram – vida em outros planetas?

A busca por (prova de) vida lá fora

Na verdade, a maioria das missões hoje em dia não procuram vida, mas se o lugar poderia ter suportado vida e algum momento. E a gente está tentando graduar para o próximo passo, que seria então procurar vida.”

A afirmação acima foi feita por Luis Phillipe Tosi, brasileiro especialista em robótica que atua no laboratório de Jet Propulsion da NASA. Ele trabalha diretamente em diversos projetos que buscam por vida fora da Terra, e explicou pra gente como isso funciona no episódio 13 do Innovation Hub Show. “ A gente trabalha com cientistas, que definem as questões fundamentais de ciência que a gente quer descobrir ou progredir em nosso conhecimento.”

E um desses cientistas é Douglas Galante, professor de geobiologia no Instituto de Geociências da USP e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Astrobiologia. Ele já trabalhou diretamente com a NASA em diversas missões, e também participou do podcast para explicar o importante papel que cientistas como ele possuem nas buscas por vida em outros planetas.

Homenzinhos verdes e micróbios invisíveis a olho nu

Uma pergunta que muita gente faz quando pensamos em vida alienígena é: como a gente tem tanta certeza que as outras formas de vida serão como nós? Afinal, o que impede que, em algum outro planeta, com outra atmosfera e sob outras condições de desenvolvimento, não tenhamos uma vida biometálica, formada a partir de elementos metálicos e não do carbono (um salve ao Cassaro e aos Metalianos!)? De acordo com Douglas Galante, que é especialista neste assunto, nada impede; mas quando se procura por vida fora da Terra, é preciso começar de algum lugar – e a vida como conhecemos hoje é uma boa base para isso: “Quando a gente fala de procurar por vida, tem diferentes formas de você atacar o problema, e a forma mais simples é você procurar por vida como você conhece. E a vida como a gente conhece é essa: é a vida baseada em carbono, é a vida baseada em células, é a vida que precisa de água e moléculas orgânicas para existir e funcionar. E é isso que a gente procura – isso e os subprodutos disso. Mas existem propostas um pouco mais ousadas, que tentam sair desse lugar comum e procurar por vida exótica.” Apesar de existirem propostas que buscam encontrar uma vida diferente daquilo que conhecemos, tanto Douglas quanto Tosi afirmam não conhecer nenhuma missão que foi enviada com esse objetivo.

Quando falamos de encontrar vida como a conhecemos, existem hoje dois métodos: um é procurar por formas de vida microbianas, e outro é procurar por uma espécie inteligente e comunicante. E, para Douglas, estar aberto a ambos é muito importante: “A vida microbiana é mais difícil de ser encontrada, mas ela é mais provável de existir. A vida inteligente e comunicante é mais difícil de existir, mas ela é mais fácil de ser encontrada. Não é óbvio que a gente vai primeiro encontrar bactérias ou primeiro a gente vai encontrar uma inteligência comunicante de algum tipo, então a parte acadêmica está aberta a essas duas abordagens.”

Apesar dessa importância de se estar aberto para ambas as abordagens, o pesquisador confirma que, hoje, a mais utilizada é a busca por vida microbiana: “A maioria dos pesquisadores procura por vida microbiana fora da Terra. Porque a gente entende que é o tipo de vida mais simples de surgir. Então a gente procura por lugares que estejam habitados por bactérias e que as bactérias estejam modificando o ambiente de uma maneira que a gente possa detectar. Mas isso não impede que alguns pesquisadores se perguntem: será que existe vida inteligente, comunicante e tecnológica fora da Terra? Existe inclusive um instituto lá em Pasadena, que é o Instituto SETI [Search for ExtraTerrestrial Intelligence], que agora é também um instituto de astrobiologia, mas ele se dedicava integralmente à procura por vida inteligente e comunicante.”

Mas onde está essa vida?

Quando pensamos em vida fora da Terra, a ideia de Marte – e dos marcianos – ainda é muito presente no imaginário popular. Mas, ainda que o planeta vermelho esteja nos planos da NASA, Tosi explica que há um outro lugar muito interessante para a agência aeroespacial: “Um dos lugares mais interessantes hoje em dia é Encélado, que é uma das luas de Saturno.”

Ele explica que essa lua, que possui uma estrutura similar a de um ovo (uma crosta de gelo, que encobre um oceano líquido e um centro rochoso), possui muitas características interessantes: primeiro, ela quebrou uma concepção de anos dos cientistas e pesquisadores de que não era possível existir água líquida fora da órbita de Marte, já que o sol não tem energia o bastante pra manter a água num estado líquido em uma distância maior. E foi nessa lua que descobriu-se uma outra forma da água existir: por Júpiter e Saturno serem planetas muito grandes, a atração gravitacional que eles exercem sobre Encéfalo faz com que as forças de maré estiquem e contraiam o centro rochoso desse satélite durante a órbita. Isso transfere energia suficiente para derreter a parte interna da camada de gelo que encobre esta lua, criando assim um oceano submerso de água líquida. E, como este oceano existe já há alguns milhões de anos, os pesquisadores e cientistas de NASA acreditam que há uma boa possibilidade de se encontrar vida na lua.

E existem sinais positivos para isso: de acordo com Tosi, a sonda Cassini enviou recentemente dados que indicam a existência de “produtos da vida”, ou seja, substâncias químicas que, no ambiente de Encélado, não existiriam naturalmente e só poderiam ser produzidas por algum organismo vivo. No caso, estamos falando aqui muito provavelmente de um microorganismo, e não de uma raça de “sereias espaciais” – seres humanoides inteligentes que desenvolveram uma civilização submersa neste oceano.

E como nós conseguiremos provar que realmente existe vida em Encélado? “Um dos conceitos que a gente está trabalhando é mandar um robô ‘cobra’ – no sentido de uma plataforma robótica extremamente adaptável e que consegue atravessar diferentes tipos de terreno,” explica Tosi. A ideia é que este robô consiga atingir o pólo sul de Encélado, onde existem diversos gêiseres que expelem água na direção de Saturno, e se aproveitar dessas entradas para conseguir atingir o oceano submerso da lua sem precisar perfurar os cerca de 40km de gelo que compõem a crosta.

Apesar do otimismo, o especialista da NASA explica que isso tudo ainda está na fase de conceito, e levará alguns anos para ser aprovado. E, mesmo que daqui alguns anos esse conceito do robô “cobra” seja aprovado, ele acredita que ainda vai levar mais umas duas décadas para que ele seja construído. E mesmo depois de a missão ser lançada – considerando a tecnologia atual – ele ainda levaria uns 9 anos para chegar em Encélado.

Mas PRA QUE procurar vida lá fora?

Essa é uma pergunta que muita gente que não liga muito pra essa coisa de “espaço” se faz: no que vai mudar a minha vida descobrir ou não se existe vida fora do planeta? Para Douglas Galante, um dos principais motivos é filosófico: “Encontrar vida nesses lugares é responder a uma questão fundamental que a gente faz desde os gregos: nós estamos sozinhos no universo?”

Mas existem também motivos práticos, mas talvez não necessariamente para o encontrar a vida em si. Afinal, o próprio processo de explorar o espaço e procurar por vida fora da Terra é responsável por muito do desenvolvimento tecnológico que temos hoje, desde a câmera do seu celular até o sinal Wi-Fi que você pode estar utilizando para acessar esse site. E são justamente as descobertas que fazemos ao tentar explorar outros mundos que podem nos ajudar a salvar o planeta onde vivemos.

Fox Mulder sempre dizia que a verdade está lá fora. Mas, mais importante do que achar essa verdade, é o processo para tentar descobri-la e todo o avanço científico que ele nos proporciona. E mesmo que nós nunca encontremos vida em outros planetas, só o fato de procurar por isso já ajudou a tornar nossa vida terrestre muito mais confortável.

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