Como as redes sociais já moldaram – e estão moldando – os jornalistas do futuro

Como as redes sociais já moldaram – e estão moldando – os jornalistas do futuro

Qualquer um que trabalha na área de comunicação ou entretenimento sabe que vivemos hoje uma “guerra pela atenção”, onde todos estão interessados em pegar um pouquinho do seu tempo. Os grandes estúdios de cinema não competem apenas com outros estúdios, mas também com as empresas de streaming, produtoras de shows, videogames, eventos esportivos e tudo o mais que pode ser considerado entretenimento. Afinal, nosso tempo é finito, e diariamente recebemos milhares de estímulos que tentam nos convencer sobre qual é a melhor forma de gastá-lo.

O mesmo acontece com o jornalismo: hoje, os grandes jornais não competem apenas com outros grandes veículos da TV e do rádio, mas também com blogs, influencers, TikTokers, YouTubers e todo e qualquer tipo de conteúdo que encontramos todos os dias na internet. Mas mais do que oferecer uma alternativa (na forma de vídeos de gatinhos e novas dancinhas) para as notícias do dia, as redes sociais também mudaram por si só a forma como o jornalismo é feito hoje.

A busca incessante pelo click

Apesar de os grandes veículos tradicionais ainda serem vistos como “o lugar para consumir notícias”, isto está mudando: de acordo com uma pesquisa Digital News Report 2023, feita pelo Instituto Reuters de Jornalismo da Universidade de Oxford (Inglaterra), 30% das pessoas se informam exclusivamente pelas publicações que vêem nas redes sociais. E nisto não falamos apenas dos perfis das redes sociais dos grandes veículos de notícias, mas inclusive comentários e opiniões de pessoas que não são jornalistas ou profissionais da comunicação.

Esse é justamente um dos grandes desafios indicados por Déborah Oliveira, diretora de conteúdo do IT Fórum, no episódio 5 do Innovation Hub Show. Ela aponta que, hoje, qualquer pessoa que tenha um celular ou um computador se torna produtor de conteúdo, e ao mesmo tempo que isso tem suas vantagens – como uma maior variedade de opiniões sobre determinado assunto – também tem desvantagens, como o fato de muitas dessas pessoas não estarem preparadas para assumir as responsabilidades esperadas de um comunicador. 

Já Tati Americano, COO da agência Ideal e que também participou do episódio, apontou que essa mudança no comportamento das pessoas – de se informarem cada vez mais pelas redes sociais – mudou também o próprio jornalismo em si. Ela lembra que aquele papel tradicional do jornalista – de buscar a informação exclusiva, o ângulo único, de ser o primeiro a publicar sobre um assunto relevante – está se tornando cada vez mais difícil. Principalmente quando falamos de editorias como tecnologia, hoje meio que todos os veículos têm acesso às informações relevantes para publicação quase que ao mesmo tempo – e muitas vezes através das próprias redes sociais das empresas, insiders e especialistas do assunto. Então, não é apenas que hoje as pessoas estão nas redes sociais debatendo sobre os assuntos publicados pela imprensa, mas se tornou uma tarefa da imprensa ser pautada – e transformar em pauta – os assuntos comentados nas redes sociais.

E essas mudanças não só na forma de encontrar seu público, mas na própria geração do conteúdo, são alguns dos fatores que colocam a prática do jornalismo na encruzilhada que a profissão se encontra há anos – e num momento onde ninguém sabe dizer exatamente para onde ela vai no futuro. A Déborah acredita que todas essas mudanças causadas pelas redes sociais vai fazer com que o papel central do jornalista – de ser a pessoa que investiga um fato e traz uma informação real sobre ele – vai voltar com força, e que a facilidade de qualquer um produzir conteúdo vai fazer com que as pessoas busquem cada vez mais se informar por fontes “oficiais”, ou seja, os veículos de mídia que elas confiam.

E a COO da Ideal concorda com ambos: “É menos a forma e mais o conteúdo. Porque no final das contas é isso: não importa se você está usando o blog ou se você tem ali um canal no YouTube, mas quando você tem essa questão da credibilidade, com a busca da informação, você tá produzindo um conteúdo de qualidade”, disse Tati Americano no episódio 5 do nosso podcast.

Texto, áudio ou vídeo?

Outra grande dúvida para quem faz jornalismo digital hoje é: onde eu devo me comunicar com o público? Porque esta foi outra grande mudança para a profissão criada pelas redes sociais: a existência de formas quase que infindáveis de se comunicar com o público. De forma geral, os formatos continuam sendo os mesmos que sempre foram – texto, áudio e vídeo, o mesmo formato da trinca tradicional de jornal, rádio e TV – mas as redes sociais criaram especificidades que tornam a vida dos comunicadores um pouco mais complicada. Um texto escrito para um blog não é a mesma coisa que um texto pensado para ser postado diretamente no Linkedin, e é bem diferente de um tweet; um podcast não é a mesma coisa que mandar um áudio no WhatsApp; um vídeo para o YouTube é totalmente diferente de um para o TikTok. 

No mesmo episódio do podcast, a Déborah defendeu que quem deve definir onde o seu conteúdo está é o público:  “A gente tem que estar onde o nosso leitor está, seja ele em texto, áudio ou vídeo. Então quem  hoje determina aonde a gente deve estar é o leitor.” – e, claro, aponta que este conteúdo precisa ser multimídia e num formato que funciona melhor em cada canal. Mas se, quando falamos dos grandes sites, portais e veículos de mídia mais tradicionais, produzir conteúdos nos formatos específicos de cada canal e cada rede social já é um esforço enorme e que demanda o trabalho de muitas pessoas, como ser multimídia quando falamos da pessoa do jornalista?

Um possível papel do novo jornalista foi apontado no podcast pelo nosso Igor Lopes, que acredita que talvez o futuro não está em ser o cara que produz conteúdo para todas as redes sociais e em todos os formatos possíveis, mas alguém com uma produção em menor quantidade, com foco na qualidade da informação e em apenas um formato específico que melhor fala com o público dele. E, claro, em tentar sempre inovar. Ele relembrou da época em que começou a desenhar a estratégia da produção de vídeos no Canaltech: em uma época onde as pessoas estavam num momento de fazer vlogs e vídeos mais “caseiros”, o Canaltech surgiu com uma proposta bem mais elaborada e profissional, trazendo para a internet o mesmo valor de produção que até então existia apenas na TV. E essa mentalidade não apenas ajudou o Canaltech a ganhar ainda mais relevância e se tornar o gigante que é hoje, mas também alavancou um novo momento na produção para a internet como um todo, onde até os vloggers se preocupam com detalhes como cenário, iluminação e qualidade de áudio e vídeo.

E quando falamos de momento, a Gigi Casimiro – produtora de metaverso que também é uma das hosts do Innovation Hub Show – aponta que hoje esse momento de virada parece estar acontecendo no streaming de games. Cada vez mais esses streamers usam o jogo como um pano de fundo para discutir com o público questões de cultura, política, esportes e todo um universo de assuntos que, muitas vezes, nada tem a ver com o game em si – e isso tem feito muito sucesso, principalmente com o público mais jovem.

Outro fator que deveria preocupar os jornalistas do futuro é estar sempre de olho em algumas “Inadequações” de mercado. Quem trouxe esse exemplo no podcast foi a Joyce Macedo, jornalista especialista em tecnologia que atua como apresentadora no Loop Infinito. Ela comenta sobre como sentia falta de um conteúdo mais “factual” e direto no YouTube, que sempre foi dominado por vídeos mais opinativos e mergulhos em um determinado assunto. E foi no esforço de trazer algo diferente disso que ela influenciou a criação do canal Giro do Loop, que tinha como objetivo levar algo mais factual para o público do Loop Infinito no Youtube.

Conteúdo para humanos ou para as máquinas?

Mas aí você se pergunta: por que o Loop criou um novo canal ao invés de apenas colocar um programa factual no canal oficial? Essa é uma questão que a própria Joyce respondeu no podcast: o algoritmo. Da forma como o algoritmo do YouTube funciona, colocar um novo programa totalmente diferente do conteúdo que o Loop já fazia poderia, ao invés de trazer um novo público, apenas diminuir a entrega e relevância de todos os conteúdos do canal. Por isso a escolha de criar um novo canal, e tentar trazer a audiência do Loop para ele no intuito de criar relevância dentro deste novo nicho temático.

A questão do algoritmo também foi levantada pela Déborah. Ela apontou que entre ficar se preocupando com o algoritmo de ranqueamento do Google, práticas de SEO e tudo o que o criador de conteúdo precisa se preocupar hoje em dia, uma dúvida cada vez mais comum para os jornalistas é: eu estou criando um conteúdo interessante para o meu leitor, ou para uma máquina? “Ao mesmo tempo que a gente tem mais conteúdo, a gente acaba perdendo um pouco dessa questão da humanização, porque a gente tá fazendo conteúdos para a tecnologia e não para humanos”, afirmou a diretora de conteúdo da IT Fórum. A saída para isso? “Pensar em quem é o meu leitor, quem é essa pessoa que vai consumir o meu conteúdo”, segundo a própria Déborah.

E este é um movimento que tem tomado força nos Estados Unidos, principalmente entre jornalistas que são demitidos de grandes sites após mudanças na gestão e demissões em massa. Alguns exemplos recentes dessa onda são os sites Defector (criado por profissionais que era do site esportivo Deadspin) e Aftermath (criado por profissionais que trabalharam em alguns dos maiores sites de games e cultura do mundo, como Kotaku e Polygon). Ao invés de seguir linhas editoriais específicas, regras de SEO ou ficar se preocupando com ranqueamentos no Google, a ideia de ambos os sites é trazer conteúdos relevantes sobre os assuntos que interessam os autores desses sites. Política, esportes, cinema, videogames – tudo é permitido, porque eles entendem que os leitores deles não são monólitos que se interessam por apenas um único assunto específico, mas sim pessoas que, como os próprios criadores do site, possuem interesse genuíno em assuntos diversos.

E esta experiência de fazer um conteúdo pensado para o público, e não para o algoritmo, foi algo que a Joyce também passou recentemente. Ela contou no podcast que, quando resolveu recentemente começar a trabalhar mais com as suas redes sociais, tentou abandonar a coisa de “vídeo de bastidores”, de puxar o celular e começar a falar sobre algum assunto X onde quer que estivesse, para algo melhor produzido – e o resultado disso foi horrível. Apesar que a ideia dos “resumos preguiçosos” de um determinado assunto ou evento ter surgido apenas por uma questão de tempo x necessidade (ela sentia uma obrigação de criar conteúdos em vídeo para as redes sociais mas não tinha tempo pra isso), este formato mais de “bastidores” acabou se tornando uma marca dela. E era exatamente este tipo de conteúdo mais cru, e não uma produção profissional, que o público dela queria consumir.

Então é este o conteúdo do futuro? Ainda é muito cedo para saber, principalmente com todas as mudanças que a IA ainda irá trazer para a área, mas ao menos um exemplo anedótico nós já temos: o Deadspin (que em outubro de 2019 mudou toda a sua linha editorial após ser adquirido em G/O Media, demitiu todos os principais jornalistas e passou a focar em conteúdos feitos por IA e por leitores) já não existe mais – em março deste ano o site foi vendido para a Lineup Publishing, que demitiu todo o restante da equipe que ainda trabalhava por lá. Enquanto isso, o Defector (o site criado pelos jornalistas demitidos em 2019) segue ganhando cada vez mais notoriedade, e consegue manter seus jornalistas empregados com um modelo de assinatura por leitores. Isso não quer necessariamente dizer que um modelo é melhor que o outro, mas aponta aquela caminho citado lá no começo pela Déborah sobre o papel do jornalista: é menos forma, mais conteúdo, e na dúvida as pessoas irão atrás de quem elas mais confiam. E, por enquanto, as pessoas ainda confiam mais nos jornalistas do que nos fundos de investimento.

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