A internet não transforma crianças em criminosas – mas ajuda

A internet não transforma crianças em criminosas – mas ajuda

Um dos maiores medos recentes de qualquer pai é sobre o que os seus filhos fazem na internet. Afinal, ali pode ser o pesadelo dos tutores: um lugar onde seus filhos podem se comunicar com estranhos de qualquer lugar do mundo sem eles ficarem sabendo. E, como sempre afirma a Lei de Murphy, isso tem acontecido da pior forma possível: crianças e adolescentes não só tem se tornado vítimas em diversas modalidades de crime digital, como também são manipuladas para cometer crimes fora desses ambientes.

É o caso dos ataques a escolas, que já se tornaram uma ocorrência comum nos EUA e que tem aumentado em níveis alarmantes aqui no Brasil. E, em quase todos os casos, as crianças e adolescentes que cometem esses crimes fazem parte de uma comunidade virtual que as radicaliza e manipula a acreditarem que não estão cometendo um ato brutal, mas reparando alguma injustiça da sociedade para com elas.

Para além dos jogos violentos

Sempre que acontece algum caso de crime brutal praticado por adolescente, rapidamente há uma obsessão da mídia em ligar o crime com jogos violentos. Os atiradores de Columbine jogavam Doom? Então foi o jogo que fez eles entrar armados na escola (que também era cheia de outros alunos que jogavam Doom) e matar 13 pessoas. O atirador de Sandy Hook jogava Call of Duty? Então foi o jogo que fez ele entrar armado na escola (que, olha só, tinha centenas de outros alunos que também jogavam Call of Duty) e matar 26 pessoas. Até mesmo aqui no Brasil: quando o caso Pesseghini saiu na mídia, rapidamente tentou-se justificar a ação como uma influência do jogo Assassin’s Creed. Mas será que os videogames são mesmo máquinas de criar assassinos?

Claro que não. E quem defende isso é Christian Costa, psicólogo clínico e criminal na CECCRIM (Centro de Estudos do Comportamento Criminal) e que participou do episódio 16 do Innovation Hub Show. Apesar da mídia tentar sempre achar um culpado “simples” para esses problemas complexos – na década de 80 eram jogos de RPG como Dungeons & Dragons, e hoje são os videogames – na realidade essas mídias não influenciam tanto assim em decisões desse tipo: “Assim como o seu filho pode estar numa festinha e, quando alguém oferecer droga, ele recusa, ele também pode estar jogando jogos de extrema violência, conversando online com outros jogadores, e ele não vai cometer crimes. O jogo não vai te transformar num criminoso ou em uma pessoa violenta. Antigamente a gente brincava de polícia e ladrão, e isso não fez com que todo mundo que brincou disso virasse um policial ou um ladrão.”

“Sabe onde essas pessoas estão sendo capturadas? Não é no GTA, no Counter Strike, no Call of Duty. É no Roblox e no Minecraft.” Quem afirma isso é Carla Albuquerque, diretora executiva e fundadora da Medialand – produtora brasileira que foi uma das pioneiras do país no gênero true crime, com programas como Operação de Risco, Investigação Criminal, Divisão de Homicídios e Anatomia do Crime. Esse alerta é uma forma de mostrar como esses grupos criminosos são expertos: ao invés de ir atrás de crianças e adolescentes nos jogos violentos (que provavelmente são mais vigiados pelos pais), elas buscam cooptar essas crianças em jogos considerados infantis – já que, por terem um conteúdo muitas vezes educacional e seguro, os pais costumam não prestar tanta atenção nas interações que existem ali dentro.

“Não é da noite pro dia que esses jovens vão se encontrando, vão se identificando, e que se juntam pra ir pra uma sala do Discord” alerta Christian Costa sobre como essa cooptação dos jovens é feita. “ Isso tem uma engenharia, inclusive comportamental de identificação.”

A culpa não é da tecnologia

Mas, se não são os videogames violentos que levam os jovens a cometer esses crimes hediondos, a explicação seria algum tipo de doença mental? Não exatamente. “Não existe uma associação de doença mental que sirva como causa na decisão desse indivíduo de cometer um ato criminoso”, alerta o psicólogo. “O advento da tecnologia não propicia ou identifica criminosos, não suga criminosos para esse universo. Nós temos pessoas que vão cometer crimes independente do território em que elas estejam.”

Christian defende que é tudo uma questão de escolhas individuais: assim como ninguém vai pular da ponte apenas porque alguém disse para ele fazer isso, ninguém também entra numa escola atirando porque um estranho na internet disse para ela fazer isso. Mas, se essa pessoa foi condicionada a acreditar que entrar armado numa escola e atirar nas pessoas é algo legal e que ela tem vontade de fazer algum dia, o pedido de um estranho na internet pode se tornar a desculpa que esse jovem precisa para satisfazer um desejo próprio. E um dos grandes mistérios da psicologia criminal hoje é entender como isso acontece: “Em que momento um jovem comum, como tantos outros, resolve ir para trás do computador, entrar num Discord ou qualquer outra rede social, e dizer ‘eu quero cometer um crime’?”, continua Christian. “ Isso é um processo. Ele não acordou naquele dia e resolveu que vai para o Discord cometer um crime de estupro virtual. É um processo de transformação. Então não é qualquer pessoa que consegue fazer o que eles fazem. Em poucos casos a gente identifica quadros psicopatológicos ou outras comorbidades específicas. A ampla maioria é crença. É a pessoa decidir deliberadamente que quer fazer aquilo. E essa é uma grande preocupação, porque está aumentando.”

“O que me chama atenção nesses casos é o nível de extremismo, o nível de alterações e erros cognitivos que esses jovens têm, o nível de decisão de fazer o mal acreditando que estão fazendo o certo”, aponta Christian. E é justamente a radicalização para ideologias extremas que mais tem preocupados os pesquisadores: desde movimentos incels (os “celibatários involuntários”, grupos altamente misóginos que colocam nas mulheres toda a culpa de suas frustrações) até mesmo discursos de racismo aberto e apologias ao nazismo se tornam cada vez mais comuns entre os jovens. E são esses discursos extremos que podem ser uma porta de entrada para ações extremas, como os ataques a escolas ou práticas de estupro virtual.

Mas, ao mesmo tempo, isso gera uma dúvida: o que é que faz com que esses jovens se identifiquem com esses grupos extremos, e tantos outros não? “ Imagina quantos jovens não estão hoje atrás de um computador e não estão cometendo crimes”, comenta o psicólogo Christian Costa. “Mas porque esse em específico resolve cometer? Por que ele pega a faca e, ao invés de cortar o queijo, ele usa para matar alguém?”

Definição de perfil como inovação

Essa é uma pergunta que, explica Christian, é difícil de responder no momento atual: “A gente entra numa cultura muito triste da segurança pública no Brasil, que as decisões sobre esse assunto não têm base científica. Nós não temos bancos de dados científicos, comportamentais, no Brasil. Então quando a gente esbarra na falta de cultura científica, de percepção e entendimento desse comportamento criminal de qualquer indivíduo que comete crimes, a gente falha. Porque a gente não tem como pensar em profilaxia daquilo que a gente não entende.”

Uma das formas de tentar conter esse problema é através da – ela mesmo! – a boa e velha educação. Christian acredita que precisamos aplicar nas nossas escolas urgentemente o que ele chama de uma psicoeducação moral. Não, não tem nada a ver com aquela ideia de “educação cívica e moral” da época dos nossos pais, que se resumia basicamente a cantar o hino, saudar a bandeira e aceitar tudo e qualquer coisa que alguém fardado tente te impor. O que Christian chama de educação moral é algo bem mais profundo: “No ambiente escolar nós temos vários crimes: temos o bullying, temos o racismo, temos o abuso, temos agressão física, temos agressão verbal. Temos um grupo de crianças e adolescentes se maltratando, tendo dificuldade interrelacional, e não há uma disciplina ensinando que elas podem sentir tudo isso, que elas tem emoções muito negativas e que isso faz parte da condição humana, e que elas podem aprender a lidar com isso. Não adianta dizer que eu sou bom porque eu não sou somente bom, e essa é uma realidade que as pessoas tentam afastar de si; ‘eu não cometo o mal, o outro que comete’, e eu consigo anular em mim o tom da maldade quando eu projeto isso no outro. E isso vira uma bola de neve que eu não consigo me autodeterminar, me compreender, me aceitar, e projeto toda essa inadequação que eu tenho no outro.”

E, quando perguntado sobre as novas tecnologias – afinal, não é a IA que vai resolver todos os problemas do mundo? – ele é bem enfático em afirmar que ela não vai solucionar este problema em específico; mas ajuda: “A tecnologia vai evitar crimes? Não. A violência vai acabar? Não. As facções vão acabar? Não. É uma questão de pensamento, de cultura, de sociedade. Mas a tecnologia de investigação para bancos de dados vai me trazer, com relações comportamentais, processos decisórios de um grupo específico de criminosos que cometeram crimes A, B e C.”

E esta talvez seja a grande inovação que a segurança pública brasileira necessita: a capacidade de conseguir entender os processos decisórios desses grupos criminosos – algo que nos Estados Unidos já é aplicado desde a década de 1970 (e cuja implementação é mostrada de maneira extraordinária na série Mindhunter). 

“Nós temos uma sociedade doente? Não”, afirma Christian. “Temos uma sociedade humana que está se revelando mais. As redes sociais e a internet criaram um mundo globalizado, e este mundo globalizado apenas jogou holofote naquilo que nós somos.” Agora, o que precisamos fazer é não só aceitar esta condição, mas criarmos métodos de lidar com isso. E simplesmente proibir os jovens de usar computadores ou jogar videogames não é o caminho.

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