Enshitification: o que é e como isso está atrapalhando a sua vida

Enshitification: o que é e como isso está atrapalhando a sua vida

Você também tem a impressão de que o mundo está ficando cada vez pior? Eu sei que isso pode parecer aqueles papo de velho que fica gritando pra nuvem, mergulhado em uma fantasia nostálgica que enxerga as dificuldades do presente contra uma visão romantizada de um passado que, muitas vezes, era até pior do que o tempo que vivemos hoje. Mas, falando especificamente do mundo tech, essa percepção não é exatamente um devaneio nostálgico, mas uma realidade.

Você com certeza lembra de como muitos dos apps e serviços que você usa hoje já foram melhor a não muito tempo atrás: Uber. Netflix. Facebook. Instagram. O que não falta são exemplos de tecnologias recentes o suficiente pra que seja possível perceber como elas pioraram muito ao longo dos anos. E, acredite se quiser, esse movimento de piora tem nome: enshitfication.

Que “merda” é essa?

Enshitfication (uma palavra que, traduzida para o português, seria algo como “merdamento” ou “merdarização”) é um termo criado por Cory Doctorow, jornalista tech e escritor de ficção-científica, em um artigo publicado na Wired. Este artigo, que tinha como foco a evolução do TikTok, trazia o termo enshitification como uma nova constante na vida de usuários, e algo que invariavelmente iria acontecer com todos os apps, produtos e serviços que eles utilizavam.

A conceito por trás do termo é o de que as empresas estariam indo além da chamada obsolescência programada, não mais apenas produzindo produtos de menor qualidade para te obrigar a consumir mais, mas criando monopólios que te tornam tão reféns daqueles produtos que, em um certo momento, elas podem diminuir consideravelmente a qualidade deles que você não irá parar de consumi-los. 

A relação saudável de produto e cliente – aquela que é ditada como o mundo ideal por todos os livros de economia, onde o fornecedor de um produto ou serviço precisa garantir que ele tenha um alto padrão de qualidade para que seus consumidores não optem pelo concorrente – não existe mais. Primeiro que, por um lado, não há concorrentes; e segundo porque, por outro, nós, como consumidores, estamos cada vez menos “clientes” e cada vez mais “usuários” no sentido pejorativo da palavra, como sinônimo de “viciado” mesmo. E, nessa boca hipotética, as Big Techs são os únicos “traficantes” que possuem o produto que nos viciou.

Enshitification na prática

Mas, como isso tudo te afeta na prática? Este foi um dos temas do episódio 14 do Innovation Hub Show, e todos os participantes foram unânimes ao tentar lembrar do primeiro modelo de enshitificação que sentiram na prática: a UBER. 

A Laura Martins, jornalista de tecnologia e editora do IT Fórum, comparou a atual experiência de pedir um UBER com como era quando o app chegou ao Brasil: “Chega, revoluciona, ninguém mais quer usar o táxi, e hoje eu passei literalmente 20 minutos tentando um carro de aplicativo, ao ponto de quase chegar a pedir um táxi dentro do app. A gente sai dos carros maravilhosos com aguinha, balinha, pra carros que se tiver 4 portas a gente tá feliz.” E, como bem lembrou Luiz Augusto D’Urso, advogado especialista em direito digital, essa sensação de que tudo piorou não é apenas dos usuários do app, mas também dos motoristas: “Antes a galera era feliz, ganhava bem, falava ‘sou empreendedor’. Hoje é tudo ‘ah, mas a Uber come não sei quantos porcento da gente’, reclamam que o dinâmico é injusto e não faz uma remuneração adequada.”

Já para Stephanie Kohn, head de conteúdo da NZN (empresa dona dos sites Baixaki, Tecmundo, Click Jogos, The Brief, Voxel e Mega Curioso), o melhor exemplo de enshitification está no Facebook: “Eu acho que ele é o modelo premium de enshitification. Nos primórdios ele era uma ferramenta muito boa, em termos de recursos, você pode fazer tudo lá dentro. No Facebook você tem comunidade, você tem vídeo, você tem texto – o recurso ali do Facebook era maravilhoso. Então começaram a introduzir um monte de anúncios –  aí obviamente saiu do âmbito do usuário e foi pras empresas. E esse é o ponto: eles começam olhando pro usuário, depois olham pras empresas, e então eles começam a ignorar a empresa e o usuário porque todo mundo já ficou dependente deles.”

Um terceiro exemplo de como a enshitification tem afetado diretamente nossas vidas é a questão dos streamings. “ Na época que lançou a Netflix eu dei muita entrevista dizendo que acabou a pirataria no Brasil,” afirma D’Urso, relembrando de quando o serviço chegou por aqui. “Porque só tinha a Netflix, tudo o que você queria assistir tava lá, e era muito barato, coisa de R$9,90 por mês [correção: o serviço lançou no Brasil com uma mensalidade de R$15]. Então porque você vai comprar DVD pirata, ou comprar uma TV Box, se você paga R$9,90 e tem tudo lá disponível?” Nesses 13 anos desde então, o modelo de streamings se popularizou, descentralizou assim que toda produtora quis ter o seu e hoje, ao invés de você achar tudo na Netflix, você precisa pagar uma dúzia de streamings para ter acesso a todos os conteúdos lançados – fazendo com que o serviço que chegou como a maior ameaça à TV à cabo se tornasse praticamente uma nova TV à cabo, só que pela internet.

Nascida na “merda”

Neste sentido, uma das tecnologias que mais preocupa é justamente a IA. Mesmo que ela já esteja iniciando algo que muitos consideram como uma nova revolução industrial, muitas vezes os bons usos dessa tecnologia estão ainda meio que confinados na indústria de inovação – como o Giuseppe, por exemplo. Mas, quando falamos da IA disponível para uso das pessoas comuns, os resultados estão longe de ser tão incríveis quanto tentam nos vender.

Por exemplo, o Chat GPT que confirma que inventou uma resposta, ou a nova IA nas pesquisas do Google que indicou para os usuários usarem cola na pizza ou comer pelo menos uma pedra por dia. Mas o que explicaria esses produtos apresentarem falhas tão grotescas? Na questão do Chat GPT é realmente difícil dizer, mas, no caso da IA do Google, a explicação é muito mais simples: contexto. Ou, no caso, a falta dele.

Basicamente, o que essa nova IA do Google faz? Quando você procura algo na busca, ao invés de sugerir uma lista de sites onde você pode achar a resposta pra sua dúvida, ela irá trazer direto uma resposta resumida a partir das informações que encontrou nesses sites. E aí entra a coisa do contexto: essa IA já foi treinada para entender que existem sites que publicam coisas que não são reais – e não falo nem de fake news, mas de paródias mesmo? Ou que as pessoas gostam de publicar coisas em fóruns apenas pra tirar sarro dos outros usuários? Ou mesmo que a internet está cheia de sites com absolutamente nenhum valor informacional, longas páginas de nada sobre nada, que abusam das regras de SEO criadas pelo próprio Google para burlar o algoritmo e aparecer como resultados relevantes?

Pelo menos para as duas primeiras questões, a resposta é obviamente NÃO. Afinal, a ideia de usar cola na pizza foi retirada de uma antiga postagem no Reddit, onde todos os usuários sabiam que se tratava de uma piada – mas, como a IA ainda não possui noção de contexto e ironia, ela só viu que o comentário tinha muitas curtidas e entendeu que se tratava de uma boa sugestão, e não de uma boa piada. O mesmo acontece com o caso de sugerir às pessoas comer pedra: aquilo foi tirado diretamente de um artigo do The Onion, um site humorístico que é basicamente a versão gringa do nosso Sensacionalista. Mas, como a IA não entende o contexto, o que ela leu foi que um site bem acessado escreveu sobre a sugestão de um especialista (inventado) sobre comer pedras, e achou que aquilo era uma resposta razoável.

Impactos no jornalismo

É justamente por essa falta de compreender conceitos como contexto e ironia – algo que, vamos ser francos, não é possível dizer se um dia essas IA serão capazes de entender completamente – que a função dos jornalistas deve se tornar cada vez mais importante no mundo pós-IA. Mas isso não quer dizer que, nesse meio tempo, as Big Techs não estejam causando danos para os sites e publicações que levam o jornalismo a sério.

“O que me incomoda demais nessas plataformas é a campanha proposital de diminuição de alcance,” comentou D’Urso durante o podcast. “Por exemplo, no Google eles vão te deixar não estar propositalmente na primeira página pra te obrigar a vender publicidade. Isso é uma sacanagem gigantesca!”

E como bem lembra Stephanie Kohn, esse tipo de tática não é algo exclusivo do Google, e comentou como os sites da NZN estão sofrendo também nas mãos do Facebook: “Pra mim, como jornalista, o pior é que eles estão tirando todo o alcance dos publishers. No começo, eles fizeram com que os publishers fossem pra lá, e agora a gente é totalmente refém dessa audiência que eles levam pros sites. E aí, de repente, eles param de entregar. Então hoje lá na NZN a gente tem cerca de 30% do nosso tráfego que vem de Facebook, só que isso só tá caindo, caindo, caindo, e a gente não consegue mais dar vazão. É o tecnofeudalismo. Porque a gente tá vivendo isso né? Têm os senhores feudais e a gente tá ali ao bel prazer do algoritmo, dessas 5 Big Techs ali.”

Nosso futuro tem futuro?

“Uma coisa que eu acho que é complexa é a seguinte: eles só são o que são hoje, e só conseguem fazer toda essa enshitificação, porque eles dominam tudo,” comentou Igor Lopes, host do Innovation Hub Show e que vem acompanhando de perto todo esse movimento há décadas. “A gente deixou eles fazerem isso. A gente deu nossos dados pro Google, deu nossos dados pro Facebook. Os anunciantes viram que ali era uma possibilidade e ficaram dependentes de toda uma estrutura, e a estratégia foi pra lá. A gente deixou isso acontecer. E uma vez que conquistou o mercado, conquistou as pessoas, é muito difícil sair”

Este “nós” da responsabilidade não é apenas nós como pessoas comuns e usuários dos produtos e serviços dessas empresas, mas inclusive – e talvez com até mais responsabilidade – os governos que permitiram a elas crescerem a ponto monopolizarem todo um mercado, como bem lembra D’Urso: “Você imagine assim: essas plataformas se tornaram tão poderosas e ricas que elas compram o concorrente. E se elas não compram, criam um produto similar e derrubam eles – que é o que aconteceu com o Snapchat. Então não deixa de ser um monopólio muito forte, e talvez muito difícil de se resolver por lei ou por qualquer outra forma.”

E, mesmo quando falamos em regulamentar essas empresas, isso não necessariamente vai resolver o problema, como bem lembra o advogado: “É a história do Elon Musk: mesmo que a gente regulamente aqui, trouxer uma regulamentação aqui e deixar o Twitter muito melhor, ele pode virar e falar ‘não tem mais Twitter no Brasil,’” Por isso que ele aponta que qualquer esforço de regulamentação deve começar nos Estados Unidos, pois é lá que estão as sedes de todas essas empresas. Isso tornaria muito mais inconveniente simplesmente abandonar tudo e ir para outro país menos rígido, pois ao mesmo tempo que essas empresas são muito grandes pra “quebrar”, elas também são grandes demais pra simplesmente mudarem todo o capital (monetário e humano) e infraestrutura para outro lugar.

E aí esbarramos em um outro problema, que foi apontado pela Laura Martins: “quem faz a regulação não necessariamente entende de tecnologia. Então você coloca uns dinossaurões para discutir com a própria Big Tech – que obviamente vai querer não ser regulada – e vira uma grande discussão eterna que não vai sair do lugar.” E, se você viu qualquer trecho daqueles longos inquéritos que o Senado dos EUA fez com o Mark Zuckerberg referente ao problema da Cambridge Analytica, fica claro como dali dificilmente vai sair qualquer regulamentação que solucione realmente os problemas sentidos pelo usuário.

Então, qual a saída? Neste momento, nenhuma que não pareça utópica ou praticamente impossível de ser efetuada na prática. Infelizmente, o enshitfication de tudo parece estar aí para ficar, e só nos resta mesmo olhar pro passado e lembrar, sem nostalgia, como tudo já foi melhor antes.

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