Jornalismo de influência: o futuro do jornalismo está nas marcas

Jornalismo de influência: o futuro do jornalismo está nas marcas

Jinfluencer. Pode parecer nome de pasta de amendoim, mas essa é a palavra que está definindo uma das mudanças mais importantes no jornalismo digital atual: o desafio de ser, ao mesmo tempo, jornalista e influencer. Com cerca de 20% dos jovens entre 18 e 24 tendo o TikTok como principal fonte de informação, cada vez mais se está apostando na junção entre esses dois mundos que, até bem pouco tempo, pareciam muito distintos.

Um dos principais expoentes dessa categoria de “jinfluencers” é Sophia Smith Galer, uma ex-repórter da BBC e da Vice que hoje se dedica a fazer conteúdos para o TikTok, onde já reuniu mais de 500 mil seguidores interessados nos assuntos que ela discute – que variam entre comentar sobre os principais acontecimentos do mundo e discutir questões de direito das mulheres.

Mas essa transição do jornalismo “tradicional” para um papel de influenciador não é algo exclusivo da gringa, e muitos profissionais brasileiros já estão fazendo essa transição também. Uma delas é a Joyce Macedo, jornalista de tecnologia e apresentadora no Loop Infinito, que começou a trilhar o caminho de “jinfluencer” bem recentemente: “”Eu nunca me dediquei a ser influenciadora, só recentemente que eu dei uma limpa no meu Instagram, que até então era bem pessoal, e comecei a falar sobre tecnologia ali”, revelou durante o episódio 5 do podcast Innovation Hub Show. Joyce afirma que, apesar do público dela ser relativamente pequeno para os padrões de influenciadores digitais (cerca de 12 mil pessoas seguem ela), é um público conseguido de forma totalmente orgânica e, por isso, bastante engajado e interessado no tema que ela mais aborda: o mercado de tecnologia. E ela revela que é justamente por isso que as marcas estão sempre atrás dela para fechar publis.

E é aí que está uma das questões mais importantes dessa nova fase dos jornalistas: a relação direta entre eles e as marcas. Não que o conteúdo jornalístico tradicional não seja influenciado por elas – a imprensa sempre dependeu de patrocínio para pagar as contas – mas enquanto antes os departamentos editorial e comercial eram entidades separadas, hoje muitas vezes ambos são uma única pessoa.

Desafio para o jornalismo e para as empresas

A nova onda dos “jinfluencers” não traz desafios apenas para os jornalistas em si, mas também é uma mostra de como as marcas estão enfrentando dificuldades em navegar esta nova era do marketing. E a Tati Americano, COO da agência Ideal, falou um pouco sobre isso no Innovation Hub Show: “Todo mundo que não é jornalista ou que não tá nessa área acha que entende de comunicação. Hoje todo mundo é mídia, basta você ter um celular que você é mídia. Então as pessoas acham que é tudo muito mais simples do que é, e isso se reflete também muitas vezes no cliente.”

E é justamente essa mentalidade que faz com que um dos principais trabalhos dela na agência seja justamente explicar para os clientes o que é, qual o papel real do jornalista, e porque não é apenas qualquer pessoa com uma câmera que pode fazer o que eles fazem. Já do outro lado do balcão, essa visão distorcida da importância do jornalista – ou de qualquer comunicador profissional – causada pela facilidade de qualquer pessoa criar conteúdo hoje também é sentida. É o que conta Déborah Oliveira, diretora de conteúdo do IT Fórum, no episódio 5 do Innovation Hub Show: “A gente sabe que em tempos de crise a primeira coisa que cortam é comunicação e marketing, quando sabemos que ambos são áreas estratégicas e que deveriam ser fortalecidas nesses momentos.”

Um outro desafio comum para ambas as áreas – marketing e jornalismo – é como atingir a sua audiência. Do mesmo jeito que as pessoas estão cada vez mais rejeitando os veículos de imprensa tradicional e se informando exclusivamente pelas redes sociais ou por aplicativos como o WhatsApp, as marcas também estão tendo cada vez mais dificuldades não apenas em encontrar novos clientes, mas até mesmo em se conectar com aqueles que já os conhecem. “Do mesmo jeito que tem um desafio para o jornalismo, também tem um desafio parecido para as empresas: como você fala com sua audiência, qual é o melhor canal, qual é a melhor mensagem,” afirmou a COO da agência Ideal no Innovation Hub Show.

Conectar menos e melhor

Quando pensamos nas táticas mais utilizadas para se conectar aos consumidores com conteúdo digital, a primeira coisa que vem à cabeça são os grandes influenciadores, aqueles com milhões de seguidores nas redes sociais. Mas, de acordo com Tati Americano, isso está começando a mudar: as marcas estão percebendo que esses grandes influenciadores geram muito awareness mas pouco engajamento. E elas estão começando a fazer um movimento de começar a apoiar micro influenciadores.” E está sendo uma tática “vencedora” no momento: ao invés de tentar sair na capa da Veja ou pagar milhões por uma publi da Jade Picon, as empresas estão percebendo que awareness é diferente de conversão: sim, o marketing com grandes influenciadores pode trazer uma enorme visibilidade para a sua marca, mas nem sempre essa visibilidade se converte em vendas.

E é justamente na conversão que o trabalho com micro influenciadores pode fazer a diferença: sua mensagem ou produto será visto por menos pessoas, é verdade, mas irá atingir um público mais engajado e que confia na opinião daquela pessoa – e isto pode fazer uma diferença absurda nas taxas de conversão. Porque uma coisa que esquecemos quando falamos de grandes influenciadores é que aquelas milhões de pessoas que os seguem possuem diversos motivos para isso: sim, existem aqueles que seguem porque gostam genuinamente da pessoa e confiam na opinião dela, mas também tem ali no meio muito hate following (seguir a pessoa apenas pra criticar e zombar de tudo que ela faz), gente que segue apenas porque a pessoa é famosa mas não presta atenção em um único conteúdo dela, gente que segue por obrigação profissional, além é claro dos bots e perfis falsos que seguem essas grandes contas numa tentativa de passar “credibilidade” e fingir que são pessoas reais. Quando falamos de micro influenciadores, o motivo para seguir essas pessoas normalmente é apenas um: você gosta dela e confia na opinião daquela pessoa.

“Além disso, há ainda uma outra vantagem de apostar nessas pessoas: ao abrir as portas para que esses micro influenciadores consigam participar de eventos internacionais e ter acesso a lugares e pessoas que eles nunca teriam, cria-se um vínculo entre influenciador e empresa que não existe quando falamos dos grandões. Vocês crescem juntos, e um fica feliz pelo crescimento do outro, porque isso se reflete diretamente em melhores resultados tanto para a empresa quanto para o influenciador”, completa Tati.

O velho marketing numa nova cara

Mas isso não quer dizer que algumas das práticas mais tradicionais do marketing digital vão morrer – elas apenas vão mudar de forma. E uma dessas novas formas tem sido o anúncio dentro dos games.

Uma das hosts do nosso podcast, a Gigi Casimiro trabalha com a produção de espaços no metaverso, e revelou que uma das experiências mais procuradas pelas empresas no Roblox é o tradicional “levar pessoas para um espaço específico”. De acordo com ela, as marcas se mostram muito interessadas em qualquer projeto dentro do Roblox porque a plataforma garante um retorno específico de visitas de acordo com o dinheiro investido. Mas existe uma coisa que muitas marcas se esquecem: o que fazer com esse público? “A questão é como você cria a retenção desses jogadores. Porque o Roblox joga eles lá, mas como é que você mantém eles naquele espaço?”

E é justo nesta questão de retenção que o trabalho com os “jinfluencers” pode fazer a diferença: afinal, um dos papéis do jornalista é literalmente saber prender a atenção das pessoas. O futuro do jornalismo digital pode ser um tanto incerto – e a revolução das IA não ajuda a deixar as coisas mais claras – mas esse caminho de cooperação entre marcas e jornalistas já vem funcionando há décadas quando falamos dos grandes conglomerados de mídia. Então, por que não apostar na mesma dinâmica, mas numa escala micro, influenciando diretamente possíveis clientes?

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